quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Esquadrão do além – O chamado

A noite ia alta, os amigos estavam reunidos conversando sobre o que eles sentiam e passavam toda noite, para eles era uma coisa quase inexplicável... ficavam perturbados... como era possível esse encontro simplesmente baseado em afinidade?
As questões iam se multiplicando quando perceberam que alguma coisa não ia bem em uma casa próxima do local onde eles estavam...
Foram para lá e viram uma moça atravessando a rua... ela parecia um zumbi... estava de olhos fechados, andando de maneira não muito linear, como se estivesse sendo induzida a fazer isso, apesar de não notarem nada que a estivesse forçando...
Marcos Tertuliano, com sua roupa branca,  vistosa, foi que chamou a atenção dos dois para o cordão fluídico que saia da cabeça da moça, indicando que ela está encarnada...
- isso merece uma investigação mais detalhada, disse Juan... vamos segui-la...
- concordo, disse rapidamente José Estevão, o “super-herói”...
- ok... vamos com cuidado para que não a assustemos...
A moça caminhava como se estivesse andando sobre ovos, bem devagar, parecendo, em alguns momentos, que mal tocava o chão...
Ela foi caminhando durante muito tempo, até que chegou a uma casa e parou...
Aí começamos a perceber o que estava acontecendo...
- ela está atendendo o chamado de alguém... disse Marcos Tertuliano.
- como pode ser isso? Indagou José Estevão...
- será que é isso mesmo? Será que ela não está perdida e precisa de ajuda para voltar pra casa?
- Juan, aquele cordão prateado, igual que os nossos, são a certeza que ela não está perdida, ela não está morta... ela está viva igualzinho que a gente...  se acontecer alguma coisa ela volta imediatamente para o corpo dela, onde estiver..
- Ah... refletiu o nosso “super-herói”
- Vamos acompanha-la... sugeriu o Marcos Tertuliano.
A moça continuava parada, como se o comando tivesse sido interrompido...
Notamos algum movimento na casa, luzes se acenderam, ela continuava parada... nós, com a curiosidade aguçada, resolvemos que entraríamos na casa...
Vimos uma outra moça, sonolenta, bebendo um copo com água... bebeu e voltou para o quarto...
Nós ficamos ali observando o movimento no interior da casa... tudo direitinho, não havia nada que indicasse que alguma força estranha estivesse agindo por ali...
O que seria então que a moça em desdobramento estava querendo?
Foi nesse momento que percebemos uma outra presença... era um jovem, vestido com roupas parecidas com as usadas no século XVII, XVIII... aquelas coisas de filmes de capa e espada...
Ele percebeu nossa movimentação, mas não veio em nossa direção e, para nossa surpresa, o vimos seguindo em direção à moça que ainda estava lá fora...
Ela, quando o viu, ficou tremendo, mas era um tremor de emoção e, quanto mais ele se aproximava mais ela ficava emocionada...
Marcos, que tinha mais experiência, olhava aquilo com muito interesse e parecia, que alguma a mais existia...
Os dois estavam encarnados, mas as roupas do rapaz não eram exatamente da mesma época que as da moça...
Ele pediu que ficássemos atentos para conseguir ouvir alguma coisa...
Dito e feito... ao se aproximarem pudemos ouvir alguma coisa, não totalmente inteligível, mas compreensível...
Marcos nos disse, então, que os dois estavam no mesmo recorte de tempo físico, mas em recortes espirituais diferentes, ou seja, a moça dentro do seu tempo e espaço e o rapaz em tempo diferente, mas no mesmo espaço que ela...
Perguntamos o que era aquilo... não dava para entender... estávamos confusos...
Marcos novamente nos acudiu... ela estava encarnada e com uma proposta para esta encarnação e, por isso , havia esquecido da época em que, provavelmente, os dois estiveram juntos... ele, ao contrário, não havia esquecido tudo e se mostrara dessa forma, tentando fazer com que ela se lembrasse de alguma coisa que fora comum aos dois...
A conversa se desenrolava e nós conseguimos perceber algumas falas...
- eu não posso ficar com você ... dizia a moça...
- pode sim, claro que pode, nós nos amamos, esperei muito tempo por isso...
- não estamos mais vivendo naquele tempo, você tem que entender e parar com essa perseguição...
- eu não estou te perseguindo, simplesmente estou tentando retomar nossas vidas...
- não existe a menor possibilidade...
- claro que existe, nós podemos escolher o que queremos... basta que você se lembre do que passamos juntos... basta que você me dê uma chance de provar que estou melhor...
- você não compreende...
- não compreendo o que?
- a vida é outra... estamos em outro momento... não conseguiremos ficar juntos... nem querendo...
- não existe empecilho nos dias de hoje, apesar das minhas roupas eu sei exatamente o tempo que estamos vivendo... eu sei que as regras são outras, existe um pouco mais de compreensão entre os diferentes... basta que nós queiramos...
- eu não vim para esse tipo de relacionamento... eu quero uma vida normal... vamos deixar para um outro tempo...
Essa última fala nos fez perceber que ali não estava um casal comum... fomos para dentro da casa e vimos quem estava deitado lá no quarto... era a moça que havia levantado para beber água...
Nos olhamos e fomos investigar um pouco mais... seria possível? Nos encaminhamos para os outros quartos e vimos somente um casal de pessoas mais velhas que dormiam a sono solto, despreocupados da vida... nem conseguimos ver onde eles estavam ... o certo é que aquele rapaz lá fora e a moça que dormia aqui dentro eram, literalmente, a mesma pessoa...
Ficamos assombrados e Juan perguntou, entre assustado e intrigado:
- será?
- não será... é... realmente eles estão no mesmo tempo e espaço e o rapaz ainda pensa que é o mesmo dos tempos em que estiveram juntos...
- será que eles tem chance de se encontrarem e se relacionarem amorosamente, nesta encarnação?
- a possibilidade existe sim, mas precisamos ver como os dois se comportam, pois pelo que ouvimos a moça não está com muita vontade de reatar o relacionamento dentro do que ele está propondo...
- é verdade... caramba... isso parece coisa de novela...
- é mais ou menos... a gente, às vezes, não consegue se livrar das lembranças, das tendência e passa a viver em outro corpo com as mesmas ideias que tínhamos...
- isso fica pra sempre?
- não... acho que é um momento... não necessariamente ele continuará atraindo a moça pra si... pode ser que nem se encontrem no plano físico e, caso se encontrem, não necessariamente terão uma relação homossexual... vai depender do entendimento que terão do momento que estão vivendo...
- mas eles vão sentir uma atração, caso se encontrem... ou não?
- pode ser que sim, pode ser que não... acontece com todos nós quando reencontramos pessoas de outras encarnações... pode haver uma simpatia instantânea ou uma repulsa instantânea... vai depender do que vivemos anteriormente...
- caramba!!! Por essa eu não esperava...
- nem eu... respondeu Marcos Tertuliano...
Nesse meio tempo José Estevão já estava na rua novamente e... a moça tinha desaparecido...
O rapaz entrara na casa e estava desolado... perto da cama... olhando fixamente para o corpo que estava aí deitado... sem saber o que fazer...
Nisso vimos uma outra presença... um senhor de cabelos brancos, magro, vestido com uma espécie de lençol, parecido com os fantasmas que a gente vê em filmes de Hollywood...
Ele chegou bem pertinho e, parecendo falar alguma coisa para o rapaz, começou a fazer movimentos que tomavam todo o “corpo” dele...
À medida que os movimentos se repetiam, o rapaz ia ficando mais calmo e, de repente, vimos uma névoa se formando, essa névoa foi absorvida pelo corpo da moça que estava na cama...
O senhor, então, se dirigiu até a cama, passou as mãos por cima do corpo, em movimentos lentos e parou alguns momentos ao lado... dava a impressão que ele estava fazendo uma oração naquele momento...
De repente, ele foi se desvanecendo e sumiu...
- Rapaaaiiizzzz!!! O que aconteceu? Perguntou José Estevão...
- provavelmente é o mentor do Espírito que ali está... devem ser passes para acalmar as emoções que sentiu... viram como o corpo estava agitado? Ele não conseguia voltar para o corpo com facilidade, foi preciso que o senhor que ali estava oferecesse alguns passes de equilíbrio e reconforto para que ele se acalmasse e conseguisse fazer o retorno ao corpo físico...
- e agora? Perguntou Juan...
- agora é esperar... não sabemos nada dos dois, nem o que programaram para esta reencarnação... o que importa é que eles estão tentando restabelecer o amor vivido em outros tempos...
- e se não conseguirem? Perguntou Juan...
- eles encontrarão opções que estejam de acordo com suas possibilidades... talvez se encontrem em alguma ação social e compreendam que isso é mais importante que a satisfação dos desejos que possam ter um pelo outro... ou talvez nem se vejam mais e deixem no passado distante o que viveram e aguardem uma nova oportunidade para programarem o reencontro...
- nossa... a vida tem coisas que a própria razão desconhece.... lembrou José Estevão...
- é verdade... respondeu Juan...
- será que nós os veremos novamente?
- provavelmente não... eles são donos de si e terão discernimento suficiente para fazer o que esteja de acordo com o que se propuseram nesta reencarnação...
- Marcos... como é que você sabe tanta coisa do lado de cá?
Marcos ficou surpreso com a indagação e desconversou...
- Vamos embora que logo, logo o dia vai raiar...

Manolo Quesada
18/02/2018



quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Esquadrão do além – Vida Cigana

A noite estava só começando... Juan acabara de “desdobrar”... procurou por todos os lados e nada do super-herói da noite anterior...
Será que ele não viria? Será que alguma coisa  sobrenatural acontecera com ele? Como fazer num caso desses? Ele não sabia que atitude tomar.

Ficou pensando um tempo quando percebeu uma festa, muito barulho, fumaça, gente cantando e dançando... só que não era ali... ele ficou preocupado... ouvia, via, sentia, mas não era da maneira como ele estava acostumado...

Instintivamente começou a caminhar pelas ruas em direção ao que ele imaginava fosse a tal festa...

De repente, não mais que de repente, a cena toda se descortinou a sua frente... realmente parecia um acampamento cigano, tinha até aquele carroção tipo velho oeste, puxado por cavalos e tudo o mais... no centro do furdunço tinha uma fogueira, viva, chamas altas, labaredas que atingiam mais de cinco metros de altura... só que não tinha ninguém...

Ele ficou imaginando o que seria aquilo... como pode uma cena dessas e não ter ninguém?

Ficou meio desesperado pois ele queria saber o que estava acontecendo... foi aí que ele viu uma figura dentro da casa em frente à fogueira.
Entrou e tentou conversar com o tal homem...

A descrição do homem era muito parecida com o impacto que ele tivera quando conheceu o “capitão sobrenatural”, aquele da cuequinha por fora da calça.

Esse não tinha esse adereço, mas o cara estava com uma roupitcha digna de filme da Disney... sabe aquela calça preta, botas, cinto com fivela grande, bardana na cabeça e... ouro, muito ouro...

Juan ficou extasiado com o que estava vendo... depois do primeiro “susto” teve o segundo... o homem puxou conversa, se é que pode ser chamada de conversa uma impressão fonética que atingiu o cérebro de Juan.

- ei... você!!! Me ajuda, por favor!!!

Os lábios do homem não se mexiam... Juan ficou sem saber o que fazer... será que o “som” vinha dele mesmo?

Outra vez a mesma impressão e mais uma e outra mais, até que Juan resolveu responder:

- tá falando comigo?

- claro que estou, tá vendo mais alguém aqui?

Realmente os dois estavam sós... estranho que o cigano ouvia a voz de Juan, mas não articulava para falar.

- o que você quer?

- preciso ajuda para socorrer uma amiga que não via há muito tempo...

- no que posso ajudar?

- preciso fazer com que ela se lembre de mim e nós possamos conversar sobre os bons e velhos tempos de acampamento...

- onde está essa sua amiga?

- está lá dentro da casa...

- ela não consegue “aparecer” deste lado?

- conseguir consegue, mas tem muito medo... eu não sei o que fazer...

- espera um pouco que eu tenho um amigo mais experiente, estou tentando ver onde ele está... já, já a gente resolve o caso...

Nesse meio tempo, aparece um senhor com, mais ou menos, uns quarenta anos de idade, se aproxima dos dois e, articulando, pergunta o que está acontecendo.

Juan se deslumbra com o jeitão do homem, terno impecável, estilo anos 1950, gravata, sapato brilhando como estrelas na noite escura, o prendedor da gravata com uma pérola pequena, mas de brilho intenso, dentes parecendo um teclado de piano, novinho em folha, camisa de linho, tudo impecável... ah... o chapéu!!! Um chapéu estilo Panamá, branco, com uma fita azul celeste envolvendo todo ele...

Passado o “susto”, Juan colocou o estranho a par dos últimos acontecimentos e o cigano contou também tudo o que havia dito a Juan.

O estranho então se apresentou... chamava-se Marcos Tertuliano e gostaria de ajudar, pois tinha muita experiência nesses casos onde a reencarnação separara amigos de há muito tempo.

Como é que é? Perguntou Juan.

É isso... ele está desencarnado... dá uma olhada... ele não tem o cordão de ligação com o corpo físico e, provavelmente, a amiga dele está reencarnada e não consegue entrar em contato com ele...

Rapaz... será?

Foi aí que o cigano disse o nome dele: Erick.

A partir dai, Erick começou a contar algumas coisas da vida dele... disse que não se lembrava de quase nada, mas que ele vivia em um acampamento cigano, onde se preparavam para as saídas noturnas, pois fazia parte de uma companhia de arte que encenava uma peça em várias cidades... aquelas reuniões à beira da fogueira eram para que eles treinassem a leitura de cartas, leitura de mãos, adivinhação do futuro das pessoas e assim por diante, além de proporcionar diversão e convivência para todo o grupo.

Marcos Tertuliano ouviu tudo com muita atenção e propôs que fossem ver a moça...

Chegando lá perceberam que ela se agitava, contraia o rosto, parecendo que não estava gostando muito da visita... ela não conseguia desdobrar!!!

Foi então que o Marcos perguntou ao Erick o que tinha acontecido pois, aparentemente, ela não tinha nada a ver com ele.

-nós somos amigos, fazemos parte do mesmo acampamento... não consigo entender o que está acontecendo... montei até uma fogueira para que ela visse e fosse até lá...

- há quanto tempo você não a vê, Erick?

- acho que não sei direito... eu estou meio confuso agora... não sei dizer exatamente quanto tempo faz que não a vejo...

- tem certeza que é a mesma que você conheceu?

- claro... como esquecer amiga tão querida... nós somos parceiros de teatro, fazemos brincadeiras no palco em muitas cidades... não é possível... alguma coisa está errada...

- eu também acho... disse Juan.

Nessa altura do campeonato, quem é que chega?

Ele... o “super-herói” da cueca por cima da calça...

Juan ficou aliviado...

- Onde você estava? Porque demorou tanto? Não disse que era só desdobrar que a gente se encontrava? Estamos aqui cheios de problemas...

- opa... calma... tive alguns contratempos e não consegui sintonizar com você... o que está acontecendo?

Juan contou toda a história, apresentou o Erick, apresentou o Marcos Tertuliano, mostrou a reação da moça e tudo o mais...

- Isso é simples, disse o nosso “super-herói”...

- Como assim... simples?

A pergunta foi quase geral, Marcos porém ficava um pouco afastado e esperando o desenrolar da história...

- é simples... ela está encarnada e ele desencarnado... não dá liga!!!

- liga?

- isso mesmo... ela não lembra dele, está em outra, essa história ficou em outro tempo...

- ela não vai mais lembrar de mim? Perguntou Erick.

-é capaz que lembre, sim, mas depois que ela voltar pro teu lado... antes fica muito difícil...

- e o que eu faço agora?

- você sabia que estava desencarnado? Lembra de alguma coisa que, de repente, mudou a tua vida?

- Eu lembro sim... eu perdi o controle da carroça... os cavalos ficaram muito nervosos com um raio durante a noite e acabamos caindo numa ribanceira muito profunda... depois disso eu perdi contato com os meus amigos do acampamento...

- então... não fique chateado, mas você não faz parte deste lado da vida mais... você agora é um espirito desencarnado... tem outras coisas pra fazer...

Marco Tertuliano estava parado e, mentalmente, ajudava Erick a lembrar algumas coisas do passado distante... estava numa espécie de transe...

- nossa... que coisa louca!!! Por isso ninguém conversa comigo, ninguém me escuta, ela não me escuta...

- isso mesmo... ela sente a tua presença, mas não a ponto de conversar com você... somente pessoas com capacidade mediúnica conseguem conversar, ver e sentir você de maneira mais concreta...

- ela fica assim desassossegado por minha causa?

- isso mesmo, não é que você faz com intenção, mas a tua vibração é diferente e, por isso, causa um certo mal estar nela...

- eu juro que não queria nada disso, eu só queria retomar nossas atividades...
eu sinto falta do palco e da companhia dos meus amigos... o que eu faço agora?

- fique tranquilo, disse Marcos Tertuliano, tomando parte na conversa...

- o que poderemos fazer agora, Marcos?

- já está providenciado... dá uma olhada na carroça...

Eles olharam e ficaram boquiabertos... um grupo estava lá... todos vestidos mais ou menos como Erick... e acenavam para ele...

- reconhece alguém, Erick?

- Meu Deus... como é isso? Claro que reconheço... o Estevão e o Igor estão lá... são meus amigos de longa data... estávamos no mesmo acampamento... parece milagre!!!

- não é milagre, mas uma oportunidade que você está tendo para retomar a vida...

- será que eles tem um acampamento para que possamos nos reunir?

- eu acho que sim...vá até lá e converse com eles... estão te chamando...

- e a Fernanda? Minha amiga... como ela vai ficar? – perguntou Erick.

- ela vai ficar bem... essa sensação logo desaparecerá e ela terá a impressão que acordou de um sonho estranho...

Os três “heróis” viram quando Erick foi para o lado dos amigos e desapareceu como se tivessem sido tragados pelo passado... passado tão presente que trouxe de volta velhos sentimentos de amizade e companheirismo...

Tanto Juan quanto o “super-herói” ficaram esperando que Marcos dissesse alguma coisa...

- pois é, gente... mais um caso resolvido... agora é ir pra casa e... trabalhar... o dia tá nascendo de novo...

Juan desta vez não esqueceu e perguntou para o “super-herói”:

- como é teu nome?

- Estevão... José Estevão!!!

Manolo Quesada
08/02/2018

“baseado em fatos reais relatados durante assistência de desobsessão”

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Esquadrão do além - O começo

Eram mais ou menos duas e meia da manhã quando aconteceu uma coisa muito interessante na vida de Juan... ele estava dormindo, mas conseguia agir em outra dimensão. Não conseguia explicar o que estava acontecendo, mas percebia que as coisas tinham consistência, tinham lógica, não era coisa de fantasma, ele não era um fantasma.

As coisas estavam lá, meio diferentes é verdade, mas estavam lá. Ele conseguia ver o quarto dele, a cama, a entrada do banheiro, enfim... tudo estava lá... o seu corpo também.

Como isso era possível? O que estava acontecendo? Chegou pertinho do seu corpo e percebeu que o corpo respirava normalmente, nada estava alterado, o corpo dele estava ali, deitado e vivo!

Arriscou ir até a cozinha e viu uma cena que o confundiu muito... algumas “coisas” estavam mexendo no lixo, ele não conseguia notar do que elas eram feitas, só percebia que eram escuras e não tinham formas definidas, simplesmente mexiam no lixo e tiravam alguma coisa que não eram os restos do lixo...
Mais alguns momentos e ele percebeu que elas retiravam de lá algum tipo de energia, algum tipo de coisa que lhes dava uma sensação de vida, pois eles se regozijavam a cada nova ingestão daquilo.

Ele ficou parado, sem saber o que fazer e resolveu ir até o quintal, deixando para trás as entidades que estavam na cozinha... para chegar até o quintal ele teria que abrir uma porta e não sabia como fazer... tentou e percebeu que suas mãos não conseguiam interagir com o material da maçaneta e, por isso mesmo, pensou que iria ficar lá dentro...

De repente parece que apareceu uma imagem em sua cabeça, parecida com uma cena de filme, um filme que ele havia assistido e que ficara marcado na sua mente, pois todo mundo que assistia ao tal filme chorava e chorava e chorava...

Aí ele viu a cena... entendeu o que o carinha tinha descoberto...
Ele percebeu que para abrir a porta precisaria abrir o próprio pensamento, porque se ele não interagia com a maçaneta, a resposta era que os materiais não combinavam... ele estava do outro lado, quase um fantasma e a maçaneta não... ela estava sólida, muito sólida...

Lembrando do caso ele firmou o pensamento fortemente na possibilidade de atravessar a porta... igualzinho que no filme... parou, pensou e fez a mesma coisa que o Sam... fechou os olhos e se jogou...
Não é que deu certo? Apareceu no meio da rua praticamente, tal a força que empregou para sair da cozinha...

Ainda olhou para trás e não viu nenhuma daquelas estranhas criaturas do lixo... ficou aliviado e olhou em derredor para analisar o que estava acontecendo e percebeu uma movimentação que ele não julgava que fosse possível... ele viu que tinha muita gente na rua, gente de todo tipo...

Ele ficou meio impressionado com tudo aquilo e colocou-se a pensar se seria possível manter um contato com eles, pois eram iguais, eram seres humanos, tinham aparência muito parecida com o que nós achamos que sejam os seres vivos, ou seja, eles estavam vivos, se movimentando...

Notou também que eles eram diferentes entre si, uns tinham como se fosse um rabicho que sai da cabeça e se perdia na escuridão da noite e outros não tinham, os que não tinham o tal rabicho, parecia que estavam conversando, pois ele percebia que alguns movimentos na região da boca, na face, mas não ouvia nenhum som... estava tudo muito esquisito, muito estranho...

Reparou na luz, todo mundo estava visível, mas a luz era diferente, era alguma coisa como uma luz fluorescente, dessas de monitor antigo de computador que ele havia visto num museu, daquele tipo de coisa que não se vê mais no dia a dia, e mesmo assim todo mundo parecia muito normal em termos de visual, parecendo um verdadeiro baile de carnaval, porque cada um estava com uma fantasia diferente, tinha gente com roupa de vários séculos diferentes.

Tinha de tudo, piratas, moças da corte, soldados do tempo do Tiradentes, gente de barba grande, gente sem barba, meninas e meninos brincando como se estivessem no quintal de casa... uma coisa muito louca... ele ficou sem saber o que fazer e sem ter como se comunicar com eles.

Foi aí que apareceu mais uma figura... essa foi de arrasar, pois parecia um super-herói... desses bem bregas... com aquelas roupas tipo histórias em quadrinhos, uma coisa que vendo ninguém acreditaria... ele ficou extasiado, jamais pensaria numa coisa dessas em plena noite e do lado de lá...

Não resistiu e começou a pensar com toda a força do pensamento:
-Quem é você?
Nada de resposta... tentou de novo:
- Quem é você?
Nada...

Foi aí que ele percebeu que o super-herói tinha o tal rabichinho, igual que o dele, ou seja, ele entendeu que o sujeito estava vivo e, como ele, também estava viajando do lado de lá... quando ele percebeu isso, arriscou articular as palavras e disse em claro e bom som:

- Quem é você?
Imediatamente a figura olhou para ele, sorriu e disse em tom bem-humorado:
- Eu sou o Capitão Nova Era...valeu?

- Capitão Nova Era? O que isso quer dizer?

- Isso quer dizer que eu sou um super-herói, diferente dos que já apareceram, eu atuo do outro lado da vida, combato o mal, distribuo felicidade e conserto o mundo espiritual...

- Rapaz... como é que você faz tudo isso?

- Simplesmente chego, fico de olho e ouvidos bem atentos e, ao menor sinal de confusão, eu entro em cena...

- E o pessoal te respeita, não acha meio ridículo essa “roupitcha” esquisita?

A pergunta de Juan era pertinente, pois as roupas do nosso super-herói fugiam ao convencional... era uma mistura de comercial de companhia telefônica com herói de filme japonês dos anos 1960... estava muito engraçado.

- Esquisita nada... é um modelo vintage, muito de acordo com o fato de estarmos aqui onde o tempo e espaço muitas vezes se confundem, pois as lembranças que as pessoas guardam faz com que elas apareçam do jeito que se lembram... eu só lembro de mim como herói e salvador do Universo.

- Quando aconteceu essa história de herói e salvador do Universo?

- São lembranças dos filmes que assisti e que me impressionaram, então eu tomei para mim essa tarefa e produzi esta vestimenta, este uniforme... não gostou?

- Gostei... achei meio estranho mesmo, essa cueca por fora do pijama, fica muito estranho!!!

- Primeiro não é cueca é um maillot de banho, segundo não é pijama é um fuseau... uma calça para exercícios que fica coladinha no corpo e não prejudica os movimentos... meu! você veio de onde que não sabe de nada?

- Eu vim de casa e não sei exatamente como ou porque estou aqui... ainda estou me adaptando a esta nova sensação... eu sei que estou vivo, mas não consigo interagir com tudo, deixei meu corpo lá em casa e ainda não tinha conseguido me comunicar com ninguém... você foi o primeiro...

- Entendi... primeira vez no mundo espiritual de forma consciente... eu entendo... eu também passei poucas e boas, mas agora já estou dono da situação, tenho conhecimento suficiente para me virar e poder ajudar outras pessoas... outros espíritos...

- Espíritos?  Nossa!!!

- Não se assuste não... você é um espírito, eu sou um espirito, todos somos espíritos, cada um no seu momento... mas fique tranquilo que muita coisa vai acontecer e você vai ver que a vida deste lado é bem movimentada, as noites são muito divertidas e cheias de emoção... se prepare, porque tudo está só começando...

- O que está começando?

- A sua vida no além...

- Oi?

- É.. sua vida do lado de cá... a partir de agora você domina a técnica de ir e vir, você vai dormir e acordar do lado de cá e, quando for hora de despertar você volta pro corpo e retoma a vida do lado de lá...

- Não é possível... isso só pode ser um sonho..
.
- Você vai pensar que é um sonho mesmo...  Não vai lembrar de todos os detalhes, mas ficará a lembrança do que passamos deste lado e você sentirá que alguma coisa aconteceu e que você fez parte do acontecimento. Alguma coisa como “já vi isso antes”... se ligou?

- Sei lá... parece tudo muito confuso...

- Fique frio... logo, logo, você se surpreenderá com as possibilidades de ação neste lado....

- Estou escutando alguma coisa me chamar...

- Te vejo amanhã...

De repente, Juan se vê na cama, o despertador tocando rock pesado e o dia todo para ser vivido... enquanto escovava os dentes passaram algumas lembranças pela cabeça... e ele pensou:

- Que sonho louco foi esse?


 Manolo Quesada
18/10/2016

Ilustração: Marcel Camargo Melfi